quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

«Sertã... no coração do pinhal» (pt.1)





O post de hoje é diferente. Para aqueles que ainda não têm o prazer de conhecer o nosso concelho (e até para os que já o conhecem), resolvemos divulgar um texto inédito, que esteve agendado para ser publicado numa revista de viagens nacional, intitulado: «Sertã... no coração do pinhal».
Devido à sua extensão, resolvemos publicá-lo em três partes. Aqui fica a primeira:

«Sertã... no coração do pinhal»

O verde que cobre todo o coração do pinhal é o mesmo verde que nos recebe na Sertã. Uma paisagem onde a natureza assume papel de destaque e os traços de um concelho perdido nos confins da beira, nos fazem querer descobrir alguns dos muitos tesouros que estas paragens teimam em esconder dos olhares mais desatentos. Uma viagem pela coração do pinhal e da Beira Interior...


Lançamo-nos à estrada logo pela manhã em direcção ao Interior profundo do nosso Portugal. Os quilómetros vão ficando para trás e a «selva urbana» dá lugar aos montes e vales forrados a verde. O ar que se respira parece diferente.
A seguir a uma das muitas curvas, surge a primeira reacção de espanto. Diante de nós estende-se a albufeira de Castelo de Bode, onde entre duas margens carregadas de densa vegetação, o rio Zêzere é conduzido até ao ponto de encontro com o rio Tejo, uns quilómetros mais abaixo.
As águas são límpidas e convidam a um mergulho. O único problema é que a esta hora da manhã, a temperatura da água não deve ser a mais aconselhável para este tipo de aventuras.
A ponte do Vale da Ursa, que serve de porta de entrada para o concelho da Sertã, conduz-nos até à margem pretendida. A meio do seu tabuleiro, paramos e lançamos o olhar em direcção aos montes que cercam as águas, ao verde que cobre os pinheiros, às escarpas que se estendem ao sol, às curvas e contra-curvas do rio.
O silêncio é quase total. A paisagem em nosso redor é um convite ao recolhimento e à contemplação. Ao fundo alguém parece ter aproveitado as primeiras horas do dia para uma voltinha de barco... a remos. Este é um dos muitos desportos que as condições da albufeira propicia. As caminhadas a pé junto das margens são também bastante apetecíveis.
Depois de atravessar a ponte, deixamos para trás uma placa de metal com uma mensagem de boas-vindas à Sertã. O caminho é ligeiramente a subir. Uma estrada estreita e cheia de curvas conduz-nos pelo meio de extenso arvoredo que, aqui e ali, é interrompido por pequenos campos de cultivo, onde homens idosos tentam tirar algum sustento da terra, e por pequenas casas brancas, despidas de vida, que esperam por tempos melhores.
A vila de Cernache do Bonjardim surge sem aviso. Pequenas habitações, secundadas por bonitas moradias vão desfilando pela berma da estrada. Uma serração, um stand de automóveis e algumas indústrias completam o primeiro instantâneo que tiramos à vila beirã.
Mais à frente, um dos motivos de orgulho da terra: o Colégio das Missões Ultramarinas. Fundado por D. João V, em 1791, e inicialmente baptizado de Seminário do Grão-Priorado, o colégio ergue-se diante de um bem-tratado jardim, onde uma imagem em pedra de Nossa Senhora dá as boas-vindas a quantos por ali passam.
Junto à porta encontramos um grupo de alunos que conversam animadamente. Ao avistarem-nos, o silêncio toma conta do diálogo. Os seus olhares segue-nos com curiosidade mas rapidamente voltam à conversa animada.
No interior, um enorme corredor de pedra. Portas e mais portas, de onde por vezes saem pequenos rapazes com livros debaixo do braço. Deste colégio têm saído ao longo da sua história, vários missionários incumbidos de espalhar a fé católica pelas paragens portuguesas de África e do Oriente. Antes de sairmos, uma olhadela mais pela exposição de quadros do século XVIII com motivos religiosos, expostos ao longo das suas paredes.
As ruas de Cernache estão calmas. À excepção do pequeno reboliço em frente ao mercado municipal, tudo o resto corre ao sabor de uma ligeira brisa. Passamos diante da Igreja Matriz e olhamos, por momentos, para a sua torre com carrilhão. Ao fundo das escadas que dão acesso a este templo religioso, encontra-se fixado, numa das paredes laterais, um painel de azulejos com uma representação da vila cernachense nos idos de 1618. Uma pequena viagem no tempo.
Viramos costas ao painel e embrenhamo-nos por uma rua logo em frente. A estreiteza do caminho e o baixo casario não nos faz desanimar. Mulheres no parapeito das janelas aproveitam para estender algumas peças de roupa, crianças de tenra idade correm atrás de uma bola e dois velhotes conversam à entrada de uma taberna. Os seus olhares, durante um instante, cruzam-se na nossa direcção. De volta à rua principal e depois de uma ligeira caminhada damos de caras com a estátua do condestável D. Nuno Álvares Pereira (que aqui nasceu em 24 de Junho de 1360), no centro de uma rotunda.
Á saída da vila, avistamos mais alguns solares. Um deles prende a nossa atenção. Na entrada do mesmo, um curioso fontanário serve de pouso a duas crianças, esculpidas em pedra, que se tentam proteger debaixo de um chapéu de chuva de cor azul.
A vila da Sertã é agora o próximo destino. Até lá, atravessamos mais uma densa camada de pinhal.