segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Governo pondera colocar nas mãos das Câmaras a decisão sobre extinção de freguesias

O assunto do momento são as declarações absolutamente insultuosas que Cavaco Silva fez a propósito da sua pensão, mas o que nos traz aqui é um tema bem diferente (a reforma da administração local), que promete aquecer os próximos tempos, sobretudo depois de se ter ficado a saber que o Governo está a ponderar colocar o ónus da decisão sobre a extinção/fusão de freguesias nas mãos dos municípios. Ou seja, o Executivo parece não querer ficar ligado a um processo tão melindroso e que causa sempre tantas enxaquecas ao PSD, um partido com forte implantação ao nível das autarquias.
O processo já não arrancou bem, isto porque aquilo que era para ser uma reforma que abrangeria concelhos e freguesias rapidamente se circunscreveu a estas últimas. Pedro Passos Coelho tratou de dizer que a extinção/fusão de municípios era matéria que ficava para o futuro, contradizendo-se a si e ao seu programa, onde afirmava peremptoriamente: “Queremos promover um acordo político alargado para a optimização do número de municípios e freguesias.
São percepcionáveis os receios do primeiro-ministro, mais ainda depois da forma como Miguel Relvas foi recebido num congresso da ANAFRE, onde teve de ouvir as vaias e críticas dos autarcas.
Mas a reforma (necessária há anos, diga-se, e que o Governo de José Sócrates nunca teve coragem para fazer) lá avançou com a apresentação do Documento Verde, onde se fixavam os critérios que haveriam de presidir à extinção/fusão de freguesia. Os critérios centravam-se, quase exclusivamente, no número de habitantes que cada freguesia deveria possuir para não ‘desaparecer’, sendo considerado como atenuante o facto de as freguesias, poderem estar em área rural ou urbana ou a uma distância considerável da sede de município.
No caso do concelho da Sertã, e como aqui dissemos há uns meses, as freguesias a extinguir/agregar seriam seis (Carvalhal, Ermida, Figueiredo, Marmeleiro, Palhais e Nesperal), o que obrigaria a uma reorganização do território sertaginense e ao redesenhar do nosso mapa municipal.
Perante esta matéria, a Assembleia Municipal da Sertã decidiu (e bem!) fazer eleger uma comissão que terá como funções discutir o Documento Verde e apresentar um conjunto de soluções alternativas ao cenário proposto.
Todavia, no último dia 12 de Janeiro, ficámos a saber, através do secretário de Estado da Administração Local, Paulo Júlio, em entrevista ao Jornal de Notícias, que a estratégia do Governo mudara: “Em coerência com o que sempre dissemos, vamos deixar que sejam os municípios a decidir dentro do seu território” que freguesias serão extintas ou agregadas. http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B9F3B9864-4175-4FF0-BC60-049CD063529B%7D
A ideia do Executivo é agora “envolver todos os autarcas e serem eles os propositores da nova reorganização administrativa”, referiu Paulo Júlio. Mas o governante também deixou um aviso: os critérios orientadores e as metas de agregação e extinção de freguesias previstos no Documento Verde permanecem válidos na proposta de lei, sendo que os municípios e as freguesias que não reorganizarem o seu território pagarão o ónus da sua atitude. O mesmo é dizer, o Governo reserva-se no direito de, caso não sejam atingidas as metas propostas na reforma enunciada, poder tomar uma decisão administrativa de extinção/fusão de freguesias.
Aguardamos, agora, com expectativa a publicação do projecto de lei, prometido para este mês, e onde se ficarão a conhecer os critérios definitivos sobre esta reforma. Será interessante perceber se as palavras do secretário de Estado correspondem ou não à verdade.
Se assim for, estaremos expectantes com o debate que se irá iniciar na autarquia sertaginense tendo em vista a resolução deste dossiê. Se a extinção de algumas freguesias parece pacífica (casos de Figueiredo, Ermida ou Marmeleiro), o mesmo já não se aplica no caso do Carvalhal, como o antigo e actual presidente da junta a manifestarem publicamente o seu desagrado pela extinção da freguesia.
Fazemos votos, contudo, para que o debate a realizar seja sério e não marcado pelas habituais ‘tricas’ partidárias que tanto prejudicam a democracia sertaginense.
É que esta poderá ser uma oportunidade única para se repensar o território sertaginense, de forma aberta e transversal. A população deve ser ouvida. Para terminar apenas uma nota: curiosamente, ou não, se olharmos para o actual quadro de freguesias a extinguir no concelho da Sertã, temos que todos os partidos vão perder juntas, com claro prejuízo para o CDS-PP que lhe vê serem subtraídas as duas únicas que possuía (Ermida e Marmeleiro). O PSD perde três freguesias (Figueiredo, Nesperal e Palhais) e o PS uma (Carvalhal).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Jornais antigos: O Povo da Certã

“Eis o sucessor dos extintos jornais que viram a luz da publicidade na pátria de Celinda! Como a dos seus irmãos será breve a sua existência, dirão. Circunstâncias imprevistas, contrariedades irremediáveis, assim o podem determinar. Vá longe o agouro”. Era desta forma simples e directa que se apresentava o jornal «O Povo da Certã», que saiu para as bancas, pela primeira vez, no dia 23 de Março de 1909.
O tri-mensário ilustrado, noticioso e literário era dirigido por Adelino de Mello e procurava preencher o vazio editorial deixado vago pela extinção do jornal «Gazeta das Províncias», em 1900. Como que a adivinhar o seu destino, a publicação não teve vida longa, sendo suprimido alguns meses após a sua fundação. Contudo, durante o tempo em que existiu foi um importante meio de divulgação dos acontecimentos que tinham lugar no concelho. Aliás, ficou célebre a edição de 5 de Maio de 1909, quando o seu director criticou abertamente a posição da Câmara Municipal da altura de não marcar presença (nem enviar um manifesto) no famoso Congresso Municipal de Lisboa, um acontecimento que muitos vêem como a antecâmara da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Memórias: Hospital de Nossa Senhora do Carmo



Quando se anuncia a construção de um novo hospital na Sertã (não se sabe é quando verá a luz do dia), fomos ao baú de memórias recuperar esta foto do antigo Hospital de Nossa Senhora do Carmo, inaugurado em Outubro de 1904 e que serviu o concelho durante décadas.
O Hospital de Nossa Senhora do Carmo resultou da união de esforços entre vários homens a quem a Sertã muito deve: o médico José Carlos Ehrhardt teve a ideia, Romão de Mascarenhas disponibilizou a maior parte dos fundos para a construção e Domingos Tasso de Figueiredo levantou a planta do edifício. A Câmara Municipal da Sertã, presidida na altura por João da Silva Carvalho, ofereceu o terreno.
O primeiro nome aventado para a nova infra-estrutura foi «Hospital de São João Baptista», mas a designação foi alterada pela Santa Casa da Misericórdia da Sertã para «Hospital de Nossa Senhora do Carmo», em homenagem à esposa de Romão de Mascarenhas, de seu nome Maria do Carmo.

Foto: Olímpio Craveiro

Mitos e lendas do concelho: O Milagre de Santiago

A lenda estava esquecida mas Jaime Lopes Dias recuperou-a na sua «Etnografia da Beira». Trata-se da história «O Milagre de Santiago», que tem a sua origem na freguesia da Sertã, evocando contudo a imagem que se venera na Capela de São Tiago, na povoação do Mosteiro, freguesia da Várzea dos Cavaleiros.
Aqui vai a transcrição: “No Pego da Ribeira da Sertã, em pleno ermo, longe da vista dos homens, tomava banho, em certo dia, um rapaz crente e devoto do Santo.
Obra do demo, redemoinho ou caso fortuito, o moço em certa altura começou a sentir que as forças lhe faltavam e a reconhecer que não poderia salvar-se pelo seu próprio esforço.

Pegou-se com o apóstolo.
– Santiago me acuda, disse.
Santiago, ouvindo-o, montou rápido o seu cavalo fogoso e este, com uma única passada: uma pata no Ribeiro (que do Santo tomou o nome) e outra na margem da Ribeira da Sertã atingiu o Pego. O Santo estendeu o seu pau ou cajado ao rapaz, que a ele se agarrou e assim se salvou”.

Segundo Jaime Lopes Dias, “a veracidade do facto é ainda hoje atestada, afirmam, pela impressão da pata do cavalo na safra da margem do ribeiro, só o não sendo já na margem do Pego por os últimos vestígios que lá existiam terem sido destruídos por um zorro (lugar por onde escorregam os troncos dos pinheiros que são transportados pela corrente da água) que ali funciona há anos”.