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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mitos e lendas do concelho: O Milagre de Santiago

A lenda estava esquecida mas Jaime Lopes Dias recuperou-a na sua «Etnografia da Beira». Trata-se da história «O Milagre de Santiago», que tem a sua origem na freguesia da Sertã, evocando contudo a imagem que se venera na Capela de São Tiago, na povoação do Mosteiro, freguesia da Várzea dos Cavaleiros.
Aqui vai a transcrição: “No Pego da Ribeira da Sertã, em pleno ermo, longe da vista dos homens, tomava banho, em certo dia, um rapaz crente e devoto do Santo.
Obra do demo, redemoinho ou caso fortuito, o moço em certa altura começou a sentir que as forças lhe faltavam e a reconhecer que não poderia salvar-se pelo seu próprio esforço.

Pegou-se com o apóstolo.
– Santiago me acuda, disse.
Santiago, ouvindo-o, montou rápido o seu cavalo fogoso e este, com uma única passada: uma pata no Ribeiro (que do Santo tomou o nome) e outra na margem da Ribeira da Sertã atingiu o Pego. O Santo estendeu o seu pau ou cajado ao rapaz, que a ele se agarrou e assim se salvou”.

Segundo Jaime Lopes Dias, “a veracidade do facto é ainda hoje atestada, afirmam, pela impressão da pata do cavalo na safra da margem do ribeiro, só o não sendo já na margem do Pego por os últimos vestígios que lá existiam terem sido destruídos por um zorro (lugar por onde escorregam os troncos dos pinheiros que são transportados pela corrente da água) que ali funciona há anos”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mitos e Lendas do concelho: Um jantar para o Diabo

«Um jantar para o Diabo». É este o nome da lenda que hoje aqui reproduzimos nesta secção de Mitos e Lendas. Trata-se de uma história originária da freguesia do Carvalhal, que foi publicada no livro «Histórias e Superstições na Beira Baixa», de José Carlos Duarte Moura
Aqui vai a transcrição da lenda «Um jantar para o Diabo»: “Em tempos antigos no Carvalhal dos Ramalhos andava um homem a debulhar o trigo numa eira. Quando o trigo estava debulhado, quase à tardinha, o homem queria limpar o trigo, mas não havia vento para ele o limpar. Então o homem disse o seguinte: “Diabo mande vento para limpar o trigo que eu dou-lhe um jantar”. E então de repente, começou a fazer vento e o homem limpou o trigo. Passados anos o homem morreu e não deu o jantar ao Diabo. A alma dele veio ter com a mulher para ela fazer o jantar e ir levá-lo à meia-noite a um cruzamento. Mas tinha de levar colher, garfo, pão, uma garrafa de vinho e uma moeda, chegar ao cruzamento e pôr a mesa no chão.


Os antigos contavam que o jantar era composto por umas batatas guisadas com carne e que à meia-noite, o Diabo, passava por ali a comer o que o homem lhe havia prometido. No dia seguinte de madrugada a mulher do homem ia buscar o tacho que parecia estar lavado, assim como o resto das coisas, mas da moeda nem sinal – tinha-a levado o Diabo”.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mitos e lendas do concelho: O Mouro do Cabril

Jaime Lopes Dias, na sua «Etnografia da Beira», deu a conhecer esta estranha lenda já quase esquecida no nosso concelho. Aqui vai a transcrição:
“As escarpas e ravinas que pendem sobre o leito do rio Zêzere, entre Pedrógão Grande e Pedrógão Pequeno, são tantas e tais que a cultura só ali é possível e pequena escala e através de grandes dificuldades.
Entre a mole imensa de grandes penedos, entrecortada de precipícios e panoramas formosos, como poucos tem a Beira Baixa, vicejam espontaneamente grande número de árvores e pequenas hortas que emprestam à paisagem nota de cor, frescura e alegria.
Em certo tempo, bonita moça, filha de modestos trabalhadores, seguia todas as manhãs, mal o sol nascia, agulhas e linhas na cesta pendurada do braço para fazer sua renda, a guardar avantajada porca seguida de anafados leitões. Passava os dias descuidados a ver a renda crescer e os bacorinhos medrar; regressava a casa pelo pôr-do-sol a ajudar a mãe no arranjo da casa e preparo da ceia.
Uma tarde, ultrapassada em muito a hora costumada do regresso, os pais, aflitos pela injustificada demorada da filha, dirigiram-se à horta, percorrendo e tornando a percorrer inutilmente todos os caminhos e veredas. Por muito tempo andou inquieta a população, que, em peso, implorava a Deus e aos santos o aparecimento da donzela. Com certeza arte do demo ou malefício desconhecido enredara a pequena.
Um dia, encontrando-se a pobre mãe na labuta da vida, no granjeiro da horta, apareceu subitamente a seu lado um homem que lhe pedia para ir assistir a uma mulher que ali próximo se encontrava sem qualquer auxílio. Acedeu ela à solicitação que lhe era feita, e seguiu o sujeito.
Caminhando algum tempo por veredas e atalhos, em certa altura abriu-se no terreno (estranho mistério) um alçapão. Ele entrou primeiro e ela, receosa, hesitou. Logo ele a tranquilizou e convenceu de que nenhum mal lhe aconteceria. Desceu, efectivamente, e breve se encontrou em presença de um corredor e de um interior de palácio de maravilha onde nada faltava. A pobre mulher estava estonteada!
Assistiu à parturiente e preparou a criança, ao mesmo tempo que o desconhecido morador do palácio lhe dava um frasco para, com o líquido que continha, lavar os olhos ao menino; mas recomendando-lhe e tornando a recomendar-lhe que não lavasse os olhos dela, porque, se tal fizesse, ficaria cega.
Curiosidade de mulher, mirou e remirou o frasco, e pensou de si para si: «E se eu lavasse um dos meus olhos? Mesmo que cegasse dele, sempre ficaria a ver do outro!»
Se bem o pensou, melhor o fez. Vestida a criança, foi colocá-la ao lado da mãe e, supremo espanto, viu então, mercê do líquido com que lavara um dos olhos, que a mulher a que assistira era a sua própria filha! E disse-lhe:
- Tu és a minha filha?
- Ó minha mãe, cale-se! Se ele a conhece, é capaz de a matar! Vá-se embora e não volte, que será a minha perdição eterna.
A mulher, com o coração sabe Deus como, despediu-se para se ir embora! O homem, como paga, deu-lhe uma grande mão-cheia de carvões. Fraca mulher, só, e a braços com tamanhas surpresas, perturbada e confusa, pegou na oferta e, sem atender no que recebia, meteu-a na algibeira do avental e saiu.
Em pleno ar livre, procurando orientar-se, olhou e tornou a olhar para todos os lados, mas já não viu rasto da porta ou do alçapão por onde saíra! Aflita, fora de si e morta por desabafar e contar ao marido tudo o que se passara, dirigiu-se para casa.
Entretanto lembrou-se de meter a mão na algibeira para ver o presente. Vendo que se tratava de carvões, deitou-os fora. Ao chegar a casa, contou ao marido o que vira, e quando falou da paga que recebera, meteu a mão no bolso do avental para mostrar uns restos de carvão. Qual não foi o seu espanto quando, em seu lugar, encontrou pequenas partículas de ouro. Compreendeu então que deitara fora grande riqueza!
Ouvida a narração, o marido disse:
- Isso é coisa de mouras encantadas, e contra o encantamento nada podem as almas cristãs.
No entanto, logo partiram os dois à cata da entrada no palácio do mouro. Pois se ele ficava ali tão perto! Noites e dias, madrugadas e luscos-fuscos, passearam inutilmente todo o sítio. Nem palácio, nem mouro, se bem que algumas vezes lhes parecesse chegarem a seus ouvidos choros de criança!
Passou tempo!
Um dia a pobre mãe precisou de ir a uma feira. No meio do povo que vendia e comprava, reconheceu, mercê do olho lavado com o líquido, o mouro.
Dirigiu-se-lhe a dar a salvação, mas logo ele atalhou:
- Vossemecê conhece-me?
E, palavras não eram ditas, cegou-lhe o olho que ela lavara com o líquido, inibindo-a de poder continuar a perscrutar ou observar os seus segredos.Entre a gente do Castelo, é fama que a formosa pastorinha continua encantada entre os grandes rochedos do Cabril do Zêzere”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Mitos e lendas do concelho: A Manta das Passas


É uma lenda que ainda hoje se ouve contar pela voz dos mais velhos das freguesias do Castelo e do Carvalhal. Jaime Lopes Dias recolheu a história d’«A Manta das Passas» na sua fantástica Etnografia da Beira e hoje aqui a transcrevemos:
“Indo uma mulher, na manhã de São João, a regar a sua horta, situada próximo da capela de São Lourenço, no Casal da Escusa, encontrou uma manta com passas debaixo de uma figueira. Apanhou três para se desejuar e foi à sua obrigação.
Entretida no seu trabalho, só se lembrou das passas quando acabou de soltar a água.
Metendo a mão na algibeira para as comer, em lugar de passas encontrou moedas de ouro. Voltou a correr debaixo da figueira para apanhar todas as passas que lá vira, mas não só não viu rasto delas como ouviu uma voz que lhe disse: ‘Aproveitasses-te da fortuna que estava para ti’”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mitos e lendas do concelho: Nossa Senhora do Pranto


É uma história que tem atravessado gerações e que ainda hoje fascina aqueles que estudam estas coisas. O músico e pintor Alfredo Keil (o homem que compôs o hino nacional) foi um dos que, na sua obra literária Tojos e Rosmaninhos, eternizou a lenda de Nossa Senhora do Pranto. A história está mesmo na origem da construção de uma igreja na vila de Dornes, no concelho de Ferreira de Zêzere.

“Pelas ravinas e quebradas que da serra da Vermelha, também conhecida por serra da Mendeira, situada no limite de Cernache do Bonjardim, vão até ao rio Zêzere, ouviam-se e repetiam-se, de dia e de noite, ais magoados.
O povo andava assustado.
São Guilherme de Pavia, que passava muitas vezes por aqueles sítios e ali atravessava o rio, ouviu as queixas das populações.
Regressando à Corte e tendo-lhe a Rainha Santa Isabel perguntado novidades dos terrenos dela, o santo respondeu-lhe:
- Real Senhora, anda lá tudo atemorizado com uns gemidos que se ouvem na serra.
- Não têm que se assustar – disse Santa Isabel – é minha prima que não quer ficar na serra da Vermelha e deseja passar para as minhas terras.
De facto, a imagem da Senhora do Pranto, com seu filho ao colo, aparecida no rio e recolhida em pequena ermida na serra, desaparecia para aparecer do outro lado do Zêzere. Os moradores de Cernache iam buscá-la mas, durante o trajecto, desaparecia para voltar para a outra margem do rio.
A Rainha Santa continuou:
- Vai lá. Os terrenos hão-de estar cobertos de grande orvalhada. No sítio onde não houver orvalho mandarás levantar uma igreja e nela recolherás a imagem. E verás como deixam de ouvir-se os ais, e o povo sossega.
Assim foi.
Edificada nova capela em Dornes, em sítio pitoresco, em frente à serra da Vermelha, Nossa Senhora do Pranto lá ficou para sempre, e lá continua a ser venerada por fiéis de uma e de outra margem do rio que, todos os anos, nos três dias do Espírito Santo, se juntam aos milhares para realizarem curiosos círios, cumprirem promessas e cantarem quadras”.
Fontes: Tojos e Rosmaninhos, Etnografia da Beira, O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mitos e lendas do concelho: As mouras da Ribeira da Sertã


O concelho da Sertã é fértil em lendas, mitos e crenças. É com base nesta premissa que iniciamos uma nova secção no blogue, dedicada a este campo tão interessante da nossa etnografia.
Escolhemos para abrir as hostilidades um mito quase esquecido no nosso concelho – a história das mouras da Ribeira da Sertã. Optamos pela versão narrada por Jaime Lopes Dias, na sua fantástica obra «Etnografia da Beira».
“Formosa por seus vales profundos e extensos, de margens belas e verdejantes, dominada por encosta de grande declive e de difícil acesso, a ribeira da Sertã, cercada de pinheirais extensos que, agitados pelo vento, gemem continuadamente suas mágoas, é apreciável elemento de riqueza pelos lodeiros que forma nas suas margens e pela límpida água que oferece ao homem para dessedentamento da terra e das culturas. Vai já distante o tempo em que as serras que a cercam eram povoadas de matas virgens e de animais ferozes.
Hoje, tudo é conhecido. A acção do homem chegou a todos os recantos e, no desbravar dos montes e dos vales, numa das escarpas que do Mosteiro Fundeiro [junto à Senhora dos Remédios] vai até à ribeira, formação geológica, acção do homem primitivo ou uma e outra, ficou à vista uma gruta misteriosa de larga boca escura.
Pelo povo começou a correr que dela saíam, fora de horas, a deambular pelo campo, mouras esbeltas que, por sua desgraça, ali viviam encantadas.
Uma noite foram elas, durante a sua digressão, surpreendidas por um homem. Não podendo fugir, entregaram-lhe um grande lenço atado nas quatro pontas, cujo conteúdo ele não pode ver, e aconselharam-no a que o guardasse bem, porque nele encontraria a própria felicidade! Mas… que não o desatasse. Elas voltariam a aparecer-lhe.
Entre receoso e surpreso, agarrou bem o lenço e dirigiu-se lesto para casa a esconde-lo.
Passaram dias. Debalde voltou à procura das mouras até que, cansado de esperar, contou à mulher o sucedido.
Porque não havia ele de ver o que estava no lenço e voltar a atá-lo tal como o recebeu? – obtemperou a esposa.
Dito e feito! O lenço foi desatado e, dentro, encontrada pequena porção de carvão.
Ora, carvão daquele fazia ele todos os dias do mato que queimava e das próprias brasas da sua cozinha, e por isso guardou o lenço e deitou fora o conteúdo.
Na noite desse dia as mouras apareceram-lhe.
Tristes, seus rostos macerados, não balbuciaram palavra! O homem puxou do lenço que trazia dobrado no bolso, desdobrou-o e fez menção de o entregar, mas, nisto, umas falhucas de carvão que ainda continuavam agarradas ao lenço, desprenderam-se e, ao caírem no chão, tilintaram como moedas do melhor timbre.
Mais velozes que o vento, as mouras desapareceram! E o homem lá ficou a pensar como, por sua curiosidade e inconfidência, deixara de encontrar a própria felicidade, jungindo as infelizes ao degredo eterno”.