quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Os eternos problemas na EN238



A Estrada Nacional 238 é uma das vias estruturantes do concelho da Sertã, permitindo a circulação de pessoas e mercadorias e a ligação do município aos seus vizinhos de Oleiros e Ferreira do Zêzere, entre outros. Tão importante via não tem, contudo, merecido a atenção devida, ao longo das últimas décadas, por parte do poder central e até do municipal.
Seria fastidioso enumerar os diferentes episódios que têm envolvido esta estrada nos anos mais recentes, entre promessas de requalificação a novos traçados, passando por ideias pouco mais do que ilusórias que não conseguem convencer nem o mais fiel crente. É preciso também não esquecer algumas más decisões do passado, que redundaram no vazio quase completo de iniciativas no que à EN 238 diz respeito.
Todos parecem estar de acordo que o desenho desta via não é actualmente o mais adequado: curvas em demasia, piso irregular, fraca visibilidade para quem circula ou zonas de desnível acentuado.

O troço da EN 238 compreendido entre Cernache do Bonjardim e Ferreira do Zêzere é o que tem provocado maiores dores de cabeça e agora até está cortado ao trânsito devido ao desabamento de uma barreira, na zona do Vale da Ursa, que atirou para a via toneladas de terra e pedras. O corte dura já desde quinta-feira e não há ainda previsões de quando possa terminar.

Perante tudo isto, seria conveniente pugnar cada vez mais afirmativamente (saúde-se aqui a acção da Junta de Freguesia de Cernache do Bonjardim nos alertas que tem efectuado) por uma solução que vá de encontro aos interesses da população e dos automobilistas que diariamente atravessam esta via. O silêncio não é grande arma e é nestas alturas – em que a comunicação social dá destaque a esta via – que a sensibilização deveria ser mais efectiva. É que já na década de 1960 se escrevia: “A EN 238 precisa de obras urgentes, que regularizem o traçado e facilitem a circulação dos automobilistas”.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Silvino Santos lembrado através de um ciclo de iniciativas



Dele se disse que foi um dos pioneiros do cinema brasileiro e que ‘mostrou’ a Amazónia ao mundo. Silvino Santos, natural de Cernache do Bonjardim, é um homem com um percurso de vida brilhante mas praticamente desconhecido no seu concelho de origem. A maioria dos historiadores de cinema presta-lhe reverência, porém o seu nome não figura na galeria dos notáveis sertaginenses. É a este homem que a Câmara Municipal da Sertã dedica, a partir do próximo dia 24 de Fevereiro, um conjunto de iniciativas, que pretendem dar a conhecer um pouco do seu percurso de vida e sobretudo do legado artístico que nos deixou, tanto na sétima arte como na fotografia.
O ciclo de actividades, baptizado com o sugestivo nome de «Silvino Santos – Um regresso», tem início a 24 de Fevereiro (segunda-feira) com a abertura de uma exposição fotográfica no Clube Bonjardim, que ficará patente até 6 de Março. A vila de Cernache do Bonjardim terá também a oportunidade de assistir, nos dias 25 e 26 de Fevereiro, respectivamente, aos filmes «O Cineasta da Selva» (documentário brasileiro sobre a vida e obra de Silvino Santos) e «No Paíz das Amazonas» (filme de Silvino Santos estreado em 1921 e um dos seus grandes sucessos).
No dia 8 de Março, pelas 21h30m, a Casa da Cultura da Sertã recebe o filme-concerto “No Paíz das Amazonas”, com banda sonora no local a cargo dos músicos Nuno Costa (guitarra) e Óscar Graça (piano).
O lançamento do livro «Silvino Santos – Um regresso» e a inauguração da exposição fotográfica, que esteve em Cernache do Bonjardim, acontecem no dia 9 de Março, a partir das 15 horas, na capela do Convento de Santo António da Sertã. Nesta cerimónia marcarão presença Aurélio Michiles (realizador do filme «O Cineasta da Selva»), Márcio Souza (escritor e biógrafo de Silvino Santos), João Paulo Macedo (comissário da exposição) e João Antunes (Cinemateca Portuguesa). Ainda na mesma data será exibido o filme «O Cineasta da Selva», na Casa da Cultura da Sertã.
Já a 10 de Março, terá lugar, igualmente na Casa da Cultura, a conferência «Silvino Santos – Um Pioneiro», onde serão exibidos fragmentos do filme «No Rastro do Eldorado», com comentários de Aurélio Michiles, Márcio Souza e João Paulo Macedo.
A título de curiosidade refira-se que Silvino Santos nasceu em Cernache do Bonjardim, em 1886, e era filho de António Simões Santos Silva e de Virgínia Júlia da Conceição Silva.
Após abandonar os estudos no Seminário de Cernache rumou ao Porto, antes de embarcar para o Brasil em Novembro de 1899. A viagem levou-o até Belém do Pará, onde trabalhou inicialmente numa livraria.
Silvino Santos desenvolveu, entretanto, o gosto pela fotografia e os seus dotes foram notados, particularmente por Júlio Cezar Araña, poderoso seringalista peruano que, percebendo as suas potencialidades e antecipando projectos futuros, lhe financiou uma viagem até Paris. Durante a sua estada na capital francesa, Silvino Santos passou pelos estúdios da Pathé-Fréres e pelos laboratórios dos irmãos Lumiére, onde tomou contacto com as últimas novidades da fotografia e de uma arte que começava a dar os primeiros passos – o cinema.
Regressado ao Brasil, começou a trabalhar freneticamente, fotografando e rodando algumas curtas-metragens na zona da Amazónia, financiadas por Júlio Cezar Araña.
O seu primeiro filme, datado de 1914, perdeu-se devido ao naufrágio do barco que transportava os negativos para os Estados Unidos. Idêntico destino teve o seu segundo filme, o documentário «Amazonas, o Maior Rio do Mundo».
Nesta altura, já Silvino Santos fixara residência em Manaus, trabalhando para a Amazónia Cine Film que produziu, além do documentário sobre o rio Amazonas, mais 12 documentários seus.
Com a falência desta produtora, Silvino Santos associou-se ao rico comendador português Joaquim Gonçalves de Araújo, que financiou o seu filme seguinte, «No Paiz das Amazonas». Estreada em 1921, esta primeira longa-metragem, filmada inteiramente no Amazonas, obteve um considerável êxito no Brasil e chegou a ser exibida na Europa e nos Estados Unidos.
A pretexto da exibição deste filme na Exposição Comemorativa do Centenário da Independência, Silvino Santos viajou até ao Rio de Janeiro para filmar a exposição e daí resultou o documentário «Terra Encantada».
O filme que se seguiu, «No Rasto do El-Dorado», alcançou novo êxito e a sua estreia coincidiu com o início de uma viagem de Silvino Santos a Portugal, entre 1925 e 1927, acompanhando o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo e a família. A estada em Portugal foi aproveitada para rodar 35 curtas-metragens documentais que retratavam as diferentes facetas do país e que foram depois agrupadas sob a designação «Terra Portuguesa». No mesmo período, registou o documentário «Miss Portugal».
Em 1927 visitou a família, em Cernache do Bonjardim, e documentou a sua passagem pelo concelho da Sertã com um pequeno filme de 15 minutos intitulado «Sernache de Bonjardim», hoje depositado na Cinemateca Portuguesa.
No Brasil, não parou de trabalhar, apesar de a sua carreira no cinema ter sofrido um interregno – Silvino Santos estava agora mais dedicado à fotografia devido às funções que exercia na empresa de Joaquim Gonçalves de Araújo.
O seu nome viria a cair no esquecimento e só já perto do final da vida voltou à ribalta, pela mão do Grupo de Estudos Cinematográficos de Manaus.
Ainda antes da sua morte, a 14 de Maio de 1970, foi homenageado durante a primeira edição do Festival Norte de Cinema (1969). O seu nome foi depois lembrado em várias ocasiões, nomeadamente através de biografias e documentários, como o já referido «O Cineasta da Selva».

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Memórias: Capela da Misericórdia da Sertã


As nossas memórias de hoje evocam o passado da capela da Misericórdia da Sertã, um dos templos religiosos mais antigos do concelho e que recentemente sofreu profundas obras de restauro e conservação. A sua data de construção é desconhecida mas sabe-se que já existia antes de 1543, pois neste ano o Grão-Prior do Crato autorizou que ali se erigisse um novo altar.
A capela esteve inicialmente sob os auspícios da Confraria de São João da Sertã, passando depois (1547) para o controlo da Santa Casa da Misericórdia.
Manso de Lima referia-se assim a este templo em 1730: “A capella mór é mui aceada com sua tribuna dourada, o tecto apainelado de brutesco dourado e toda ella de azulejo de figuras com a vida de Nossa Senhora”.
Este templo, de uma só nave, possui dois altares laterais (Senhor dos Passos e Senhor dos Aflitos), duas sacristias, coro-alto em madeira, suportado por duas colunas em ardósia, e arco triunfal de volta perfeita. No tecto surge pintado o brasão da Misericórdia, além de outros motivos decorativos.
Aqui está sepultado o insigne Vicente Caldeira (alcaide-mor da vila da Sertã e provedor da Misericórdia durante vários anos no século XVI) e sua mulher Isabel de Alcobia.
Foto: Olímpio Craveiro

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Incêndios florestais: um problema sem solução?


Os incêndios destruíram, entre 1980 e 2010, uma área florestal de 39 mil hectares no concelho da Sertã. O rasto de destruição é impressionante, todavia parece tardar uma estratégia corajosa que ajude a combater este flagelo ou, pelo menos, a mitigá-lo.
Todos os anos, a Sertã e muitos concelhos portugueses assistem impotentemente à devastação de um dos seus principais recursos. Os bombeiros fazem o que podem, mas nada parece deter a violência das chamas. E essa violência é, por vezes, proporcional aos problemas que atingem actualmente a nossa floresta.
Esses problemas são muitos e estão, no caso da nossa região, devidamente identificados. Diversos relatórios publicados, ao longo dos últimos anos, elencaram alguns deles: existência de áreas demasiado extensas de povoamentos florestais inadequados o que aumenta o perigo de propagação do fogo; baixa capacidade dos produtores florestais para se fazerem representar como grupo de interesse na sociedade; ausência de gestão ou gestão incipiente dos espaços florestais numa proporção considerável. Sobre este último ponto, convém recordar aquilo que Eugénio Sequeira, da Liga para a Protecção da Natureza, escreveu em Dezembro último no jornal Público: “A má gestão ou ausência de gestão ocorre em bem mais de 600.000 hectares  em que a produtividade anual será pouco maior do que cinco metros cúbicos por hectare. Ora, os terrenos geridos pelas indústrias e pelos bons produtores atingem valores duas a quatro vezes essa produtividade, e o risco de incêndios é muito inferior. As áreas sem gestão ou com gestão deficiente constituem na maioria dos casos verdadeiros ‘barris de pólvora’, responsáveis pela grande dimensão dos fogos, pela degradação dos solos e das águas”.
Alguns destes problemas têm décadas. Basta recordar que, já em Agosto de 1962, o então presidente da Câmara Municipal da Sertã, José Antunes, dizia: “A floresta, em virtude de uma organização primitiva e precária, não garante uma melhoria sensível e estável do nível económico”.
A questão fulcral parece ser o que tem falhado ao longo de todos estes anos? A resposta não é fácil e encontrar culpados seria tarefa fastidiosa, tal o rol de candidatos. Contudo, não deixa de ser extraordinário que a intensidade dos fogos florestais, neste e noutros concelhos do país, tenha aumentado a partir da década de 1960, altura em que se iniciou um rápido esvaziamento populacional do Interior português, por via da emigração. A isto é preciso somar o abandono da agricultura e da estrutura fundiária – “mais de 80% das propriedades têm menos de dois hectares, o que com os actuais custos torna incomportável a manutenção de uma produção florestal sustentável, qualquer que fosse a espécie”, notou Eugénio Sequeira, no texto acima citado.
Para agravar a situação, adicione-se o contínuo desinvestimento na educação, formação e fixação das populações, sobretudo no Interior do país, a falta de técnicos qualificados e com conhecimentos sobre técnicas e práticas silvícolas nestas regiões e a ausência de interlocutores para os espaços florestais.
O que pode então ser feito? Recorremos uma vez mais ao artigo de opinião de Eugénio Sequeira: “Uma solução séria implicava a constituição de unidades de gestão nunca inferiores a 400 a 500 hectares, que permitissem a existência de ordenamento e boa gestão, quer seja através de Zonas de Intervenção Florestal que funcionassem, quer através de empresas do tipo Sociedade Anónima ou do Estado. Podíamos aumentar a produção de pasta para papel, aumentar a produção de madeira de qualidade fundamental para a indústria de mobiliário, aumentar a área de montado, que é a defesa contra o avanço do deserto, reduzir a área de eucalipto e melhorar a sua gestão, aumentando emprego, crescimento económico, biodiversidade e qualidade devida”. Outras ideias podem ser encontradas no Plano Regional de Ordenamento Florestal – Pinhal Interior Sul. Citemos algumas: promoção da arborização com espécies cujo potencial seja adequado aos locais; valorização das linhas de água e melhoria dos habitats de suporte às espécies cinegéticas mais importantes; melhoria da gestão dos espaços florestais; aumento da capacidade de detecção de fogos e de primeira intervenção.