quarta-feira, 21 de março de 2012

Deputados: eleitos para representar os cidadãos ou os partidos?

Os deputados para a Assembleia da República são eleitos a cada quatro anos, por listas apresentadas por partidos, ou coligações de partidos, em cada círculo eleitoral. A conversão dos votos em mandatos faz-se de acordo com o sistema de representação proporcional e o método da média mais alta de Hondt. Diz a lei que os deputados representam todo o país e não apenas os cidadãos do círculo eleitoral pelo qual foram eleitos. Estas evidências estão plasmadas na Constituição Portuguesa e dão-nos uma pequena ideia da organização legislativa do nosso Parlamento.
É salutar que os deputados representem o país e não os círculos eleitorais pelos quais foram eleitos. Contudo, seria mais salutar que, de quando em vez, estes mesmos deputados se dignassem a olhar para os problemas que afligem os seus eleitores e que deles dêem eco na Assembleia da República.
Todavia, o que se passa hoje é que a maioria dos deputados, perdidos nos corredores políticos de Lisboa e do seu Parlamento, nem representam o país nem sequer aqueles que os elegeram. Aliás, nos dias que correm parecem respeitar mais a ideologia e a retórica do partido do que o programa político que apresentaram a sufrágio. Quantas vezes não é aplicada a disciplina de voto aos deputados, que estes, receosos da sua posição no partido (ou da sua reeleição), seguem bovinamente? Nem que isso vá contra aquilo que defenderam em campanha eleitoral. Veja-se o caso recente das SCUT (desde sempre mal pensadas e com os resultados que se conhecem).
Vernon Bogdanor dizia, em 1985, que os deputados podiam ser eleitos “para representarem uma ideologia”. Contudo, este investigador realçava que era de esperar que estes mesmos deputados funcionassem como “intermediários ou defensores dos cidadãos individuais, representando-os perante o Estado quando esses cidadãos têm problemas com o funcionamento ou as políticas de qualquer sector da administração pública”. E será que hoje isso acontece?
Mas olhemos por instantes para aquilo que os deputados eleitos pelo distrito de Castelo Branco têm feito desde que foram eleitos para esta legislatura. Quem se recorda da campanha concerteza lembrará as inúmeras promessas feitas ao eleitorado da região e das juras de amor ao distrito.
Analisando a actividade já desenvolvida, verificamos que todos os deputados apresentam um registo de trabalho bastante intenso (sejam do PS ou PSD), com assento em várias comissões e tendo cada um deles apresentado ao Parlamento diversas iniciativas, requerimentos ou perguntas. No que concerne ao distrito de Castelo Branco, as preocupações dos diferentes deputados têm-se centrado na introdução de portagens na A23, no problema da poluição que atinge Vila Velha Ródão, na Linha da Beira Baixa e na crise da Indústria Têxtil. Pouco, para quem tanto prometeu em campanha.
Não deixa, todavia, de ser curioso que um problema que tem afectado um dos concelhos do distrito (Sertã) não tivesse merecido uma iniciativa/questão parlamentar. Se o foi, corrijam-nos. Falamos sobre os atrasos que ainda se registam no apoio aos particulares e empresas vítimas do tornado que, em Dezembro de 2010, provocou vários danos nos concelhos de Tomar, Ferreira do Zêzere e Sertã. Mas houve um deputado que se lembrou do problema. Trata-se de José Luís Ferreira, do Grupo Parlamentar “Os Verdes” (eleito pelo círculo de Lisboa), que entregou na Assembleia da República uma pergunta em que questionava o Governo sobre esta matéria. Este é um partido que nunca elegeu um deputado pelo círculo de Castelo Branco. Recorde-se que no passado, iniciativas semelhantes em que a Sertã esteve envolvida já haviam sido espoletadas por deputados do CDS e Bloco de Esquerda, os dois também sem qualquer representatividade pelo círculo onde está incluído o nosso concelho.
Posto isto, e visto que o actual governo social-democrata está apostado em levar por diante uma reforma das leis eleitorais (esperemos que não lhe falte a coragem que lhe tem fugido para enfrentar os grandes grupos económicos), talvez fosse bom pensar se continua a fazer sentido que os deputados sejam eleitos apenas por círculos distritais? Não estará na hora de debater esta questão e encontrar alternativas, que abram espaço por exemplo à participação mais activa dos cidadãos. A sensação que temos hoje é que o exercício da democracia parece exclusiva dos partidos políticos.
E se olharmos para o que nos dizem os últimos dados do Observatório da Democracia talvez seja chegado o momento das reformas. O Observatório diz que apenas 10 por cento dos portugueses se revêem nos deputados que temos. A culpa é de quem? Da Troika? Dos interesses partidários que fecham os olhos ao problema, receando perder deputados no Parlamento? Ou de uma sociedade que deixou na mão de poucos as decisões que deviam ser de todos?

terça-feira, 6 de março de 2012

Turismo religioso em Cernache: reflexões e sugestões

A recente sessão da Assembleia Municipal realizada em Cernache do Bonjardim (saúde-se a descentralização destas reuniões) serviu de palco para levantar algumas questões prementes que marcam a vida desta freguesia. Uma delas foi a já tradicional intenção de transformar esta zona do concelho num importante ponto de turismo religioso centrado na figura de São Nuno de Santa Maria.
A ideia é antiga e até se falou na existência de um projecto que previa a construção de um santuário nas imediações do actual Seminário das Missões. Todavia, as intenções não passaram disso mesmo.
Apesar de não existirem certezas quanto ao local do seu nascimento, vários documentos que viram a luz do dia nos últimos anos permitem-nos reforçar a ideia de que Nuno Alvares Pereira poderá mesmo ter nascido em Cernache do Bonjardim, no ano de 1360.
Partindo deste pressuposto, faz todo o sentido fomentar o turismo religioso em torno da figura do Condestável, canonizado a 26 de Abril de 2009 e agora conhecido por São Nuno de Santa Maria. Contudo, é preciso lembrar que o que hoje existe em Cernache que nos ligue ao mais recente santo português é pouco. Apenas a memória e pouco mais.
Vem isto a propósito de um assunto que já aqui abordámos em tempos – a realização de escavações arqueológicas no local onde se supõe terem existido os Paços do Bonjardim, que o pai de Nuno Alvares Pereira mandou construir em pleno século XIV. Algumas fontes históricas dizem-nos que foi aqui que nasceu o Condestável e alguns dos seus irmãos. Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, exaltou este local: “Os paços e assentamento do Boõ Jardim que he obra asaz vistosa e fermosa”.
Dos 'famosos' Paços do Bonjardim já nada resta. Em 1791, o almoxarife da Sertã, Cláudio de Meneses e Castro, num relatório enviado ao príncipe regente, escrevia a propósito deste local: “Junto a uma das fontes do Parque Bom Jardim, chamada das Hortas, se divisam ainda alguns vestígios dos antigos Paços, que ali edificou o primeiro que se intitulou Grão Prior do Crato, D. Álvaro Gonçalves Pereira, ilustríssimo progenitor do grande Condestável de Portugal, D. Nuno Alvares Pereira, que neste sítio nasceu em 24 de Junho do ano de 1360 e se educou até à idade de treze anos”.
Em meados do século passado, o antigo juiz conselheiro José Maria Bravo Serra defendeu, por várias vezes, a necessidade de serem executadas escavações no local, a fim de se descobrirem algumas ruínas soterradas, mas as suas sugestões nunca foram ouvidas.
Um trabalho do género só enriqueceria o futuro santuário, que passaria a contar com os hipotéticos achados arqueológicos. Seria mais um argumento para atrair visitantes, além daquele que é o mais óbvio – o culto a São Nuno de Santa Maria.
Não tenho dúvidas de que todos teriam a ganhar com isto.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Música no concelho: Jelfam

A música sempre granjeou muitos adeptos no concelho da Sertã. A Sociedade Filarmónica Sertaginense, criada em 1830, foi o primeiro grupo organizado em torno daquela que é conhecida como ‘quarta arte’ (classificação de Ricciotto Canudo). Depois, vieram as filarmónicas de Cernache e de Pedrógão, a tuna do Sertanense, os ranchos folclóricos da década de 1930, os grupos de música organizados por Ângelo Mendes, as bandas de yé-yé e os já míticos Popxula.

Dos Popxula, prometemos falar noutro texto, isto porque hoje a nossa atenção vai centrar-se numa banda fundada na vila da Sertã, em 1964: os Jelfam. Formado por quatro jovens estudantes, o grupo obteve grande sucesso na época, actuando em diversas festas de liceu, em espectáculos de variedades e em concursos de música yé-yé. Em 1966, fizeram mesmo uma tournée pelo Sul do país, juntamente com os Cometas Negros, actuando em Setúbal e em diversas cidades e vilas do Algarve.
O grupo era constituído por Joaquim Eduardo Barata (piano e órgão), José António Fernandes (acordeão), António Moura Ribeiro (viola eléctrica) e Luís Reis e Moura (bateria).
A sua primeira actuação aconteceu em Julho de 1964, durante as Festas dos Bombeiros da Sertã, na zona da Carvalha. O jornal «A Comarca da Sertã» escreveu sobre essa primeira actuação: “A sua actuação na Festa dos Bombeiros agradou bastante. O grupo é constituído por briosos rapazes da vila da Sertã, que dedicando à música as suas horas de descanso, acabam por se reunir, formando este conjunto que está em franca ascensão”.
A banda teve vida curta, colocando um ponto final na sua existência em 1968. Três dos seus elementos viriam a formar, um ano depois, o conjunto musical «Os Vultos».

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Memórias: Carvalha



Em tempos foi conhecida como Alameda Salazar, mas o seu nome de baptismo (Carvalha) nunca perdeu razão de ser para os sertaginenses. A sua história confunde-se mesmo com a da vila da Sertã.
Neste que muitos consideram ser ‘o cartão de visita da vila’, foram operadas grandes transformações ao longo dos últimos séculos e olhando para esta foto de Luís Silva Dias, tirada nos primeiros anos do século XX, percebe-se bem a profundidade dessas mudanças.
Essas alterações (em que se destaca o verdadeiro ‘crime urbanístico’ que foi a construção do tribunal) retiraram um pouco da alma e da identidade deste espaço de recreio mas felizmente não lhe retiraram o amor e carinho dos sertaginenses.
A Carvalha foi também palco de vários acontecimentos históricos que marcaram a história da vila e do concelho. Por aqui se realizaram sessões da Câmara Municipal da Sertã, projecções de cinema ao ar livre (finais da década de 1930) e foi este o local escolhido para a instalação do primeiro campo de futebol da vila (1936).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Novos critérios: Concelho da Sertã poderá perder apenas entre três a quatro freguesias

Enquanto Pedro Passos Coelho continua a teimar em proferir declarações infelizes sobre o povo que o elegeu, a reforma da administração local vai avançando, tendo-se conhecido, nos últimos dias, novos contornos sobre esta matéria.
Segundo o Conselho de Ministros, nos municípios de nível dois e três (onde a Sertã se inclui), as freguesias da malha urbana terão de ser diminuídas em 50 por cento. Já as freguesias rurais terão de ser fundidas, nos municípios de nível dois, em 35 por cento, ao passo que nos municípios com menor densidade populacional (nível 3), a redução será de 25 por cento.
Olhando para o concelho da Sertã, temos que, em virtude de o município ter uma densidade populacional de apenas 37,4 habitantes/km², a Proposta de Lei n.º 44/XII, elaborada pelo Governo, coloca-o no Nível 3 (municípios com menos de 100 habitantes/km²).
Deste modo, e partindo de uma análise puramente objectiva e pessoal, podemos verificar que a Sertã ficará obrigada a reduzir em 25 por cento o seu número de freguesias.
A proposta de lei governamental refere que no concelho apenas a freguesia da Sertã é considerada urbana, sendo as restantes 13 freguesias entendidas como rurais.
Destas 13 freguesias e colocando em prática o critério definido pelo Governo para municípios como a Sertã, verificamos que terão de ser extintas/agregadas 25 por cento, o que dará qualquer coisa entre três e quatro freguesias a desaparecer no concelho sertaginense. Esta conclusão não é vinculativa e parte apenas de uma leitura empírica dos dados disponibilizados pelo Executivo.
Perante este cenário, a Sertã perderia um máximo de quatro freguesias, com a Câmara local a poder sugerir as que seriam extintas/agregadas.
Para terminar, apenas uma questão: a Comissão para Avaliação do Documento Verde, criada recentemente no seio da Assembleia Municipal da Sertã, já reuniu alguma vez? Era importante que o fizesse porque este processo entra agora numa fase decisiva e, de acordo com o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, tudo terá de estar concluído até ao início do último trimestre deste ano.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Governo pondera colocar nas mãos das Câmaras a decisão sobre extinção de freguesias

O assunto do momento são as declarações absolutamente insultuosas que Cavaco Silva fez a propósito da sua pensão, mas o que nos traz aqui é um tema bem diferente (a reforma da administração local), que promete aquecer os próximos tempos, sobretudo depois de se ter ficado a saber que o Governo está a ponderar colocar o ónus da decisão sobre a extinção/fusão de freguesias nas mãos dos municípios. Ou seja, o Executivo parece não querer ficar ligado a um processo tão melindroso e que causa sempre tantas enxaquecas ao PSD, um partido com forte implantação ao nível das autarquias.
O processo já não arrancou bem, isto porque aquilo que era para ser uma reforma que abrangeria concelhos e freguesias rapidamente se circunscreveu a estas últimas. Pedro Passos Coelho tratou de dizer que a extinção/fusão de municípios era matéria que ficava para o futuro, contradizendo-se a si e ao seu programa, onde afirmava peremptoriamente: “Queremos promover um acordo político alargado para a optimização do número de municípios e freguesias.
São percepcionáveis os receios do primeiro-ministro, mais ainda depois da forma como Miguel Relvas foi recebido num congresso da ANAFRE, onde teve de ouvir as vaias e críticas dos autarcas.
Mas a reforma (necessária há anos, diga-se, e que o Governo de José Sócrates nunca teve coragem para fazer) lá avançou com a apresentação do Documento Verde, onde se fixavam os critérios que haveriam de presidir à extinção/fusão de freguesia. Os critérios centravam-se, quase exclusivamente, no número de habitantes que cada freguesia deveria possuir para não ‘desaparecer’, sendo considerado como atenuante o facto de as freguesias, poderem estar em área rural ou urbana ou a uma distância considerável da sede de município.
No caso do concelho da Sertã, e como aqui dissemos há uns meses, as freguesias a extinguir/agregar seriam seis (Carvalhal, Ermida, Figueiredo, Marmeleiro, Palhais e Nesperal), o que obrigaria a uma reorganização do território sertaginense e ao redesenhar do nosso mapa municipal.
Perante esta matéria, a Assembleia Municipal da Sertã decidiu (e bem!) fazer eleger uma comissão que terá como funções discutir o Documento Verde e apresentar um conjunto de soluções alternativas ao cenário proposto.
Todavia, no último dia 12 de Janeiro, ficámos a saber, através do secretário de Estado da Administração Local, Paulo Júlio, em entrevista ao Jornal de Notícias, que a estratégia do Governo mudara: “Em coerência com o que sempre dissemos, vamos deixar que sejam os municípios a decidir dentro do seu território” que freguesias serão extintas ou agregadas. http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B9F3B9864-4175-4FF0-BC60-049CD063529B%7D
A ideia do Executivo é agora “envolver todos os autarcas e serem eles os propositores da nova reorganização administrativa”, referiu Paulo Júlio. Mas o governante também deixou um aviso: os critérios orientadores e as metas de agregação e extinção de freguesias previstos no Documento Verde permanecem válidos na proposta de lei, sendo que os municípios e as freguesias que não reorganizarem o seu território pagarão o ónus da sua atitude. O mesmo é dizer, o Governo reserva-se no direito de, caso não sejam atingidas as metas propostas na reforma enunciada, poder tomar uma decisão administrativa de extinção/fusão de freguesias.
Aguardamos, agora, com expectativa a publicação do projecto de lei, prometido para este mês, e onde se ficarão a conhecer os critérios definitivos sobre esta reforma. Será interessante perceber se as palavras do secretário de Estado correspondem ou não à verdade.
Se assim for, estaremos expectantes com o debate que se irá iniciar na autarquia sertaginense tendo em vista a resolução deste dossiê. Se a extinção de algumas freguesias parece pacífica (casos de Figueiredo, Ermida ou Marmeleiro), o mesmo já não se aplica no caso do Carvalhal, como o antigo e actual presidente da junta a manifestarem publicamente o seu desagrado pela extinção da freguesia.
Fazemos votos, contudo, para que o debate a realizar seja sério e não marcado pelas habituais ‘tricas’ partidárias que tanto prejudicam a democracia sertaginense.
É que esta poderá ser uma oportunidade única para se repensar o território sertaginense, de forma aberta e transversal. A população deve ser ouvida. Para terminar apenas uma nota: curiosamente, ou não, se olharmos para o actual quadro de freguesias a extinguir no concelho da Sertã, temos que todos os partidos vão perder juntas, com claro prejuízo para o CDS-PP que lhe vê serem subtraídas as duas únicas que possuía (Ermida e Marmeleiro). O PSD perde três freguesias (Figueiredo, Nesperal e Palhais) e o PS uma (Carvalhal).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Memórias: Hospital de Nossa Senhora do Carmo



Quando se anuncia a construção de um novo hospital na Sertã (não se sabe é quando verá a luz do dia), fomos ao baú de memórias recuperar esta foto do antigo Hospital de Nossa Senhora do Carmo, inaugurado em Outubro de 1904 e que serviu o concelho durante décadas.
O Hospital de Nossa Senhora do Carmo resultou da união de esforços entre vários homens a quem a Sertã muito deve: o médico José Carlos Ehrhardt teve a ideia, Romão de Mascarenhas disponibilizou a maior parte dos fundos para a construção e Domingos Tasso de Figueiredo levantou a planta do edifício. A Câmara Municipal da Sertã, presidida na altura por João da Silva Carvalho, ofereceu o terreno.
O primeiro nome aventado para a nova infra-estrutura foi «Hospital de São João Baptista», mas a designação foi alterada pela Santa Casa da Misericórdia da Sertã para «Hospital de Nossa Senhora do Carmo», em homenagem à esposa de Romão de Mascarenhas, de seu nome Maria do Carmo.

Foto: Olímpio Craveiro

Mitos e lendas do concelho: O Milagre de Santiago

A lenda estava esquecida mas Jaime Lopes Dias recuperou-a na sua «Etnografia da Beira». Trata-se da história «O Milagre de Santiago», que tem a sua origem na freguesia da Sertã, evocando contudo a imagem que se venera na Capela de São Tiago, na povoação do Mosteiro, freguesia da Várzea dos Cavaleiros.
Aqui vai a transcrição: “No Pego da Ribeira da Sertã, em pleno ermo, longe da vista dos homens, tomava banho, em certo dia, um rapaz crente e devoto do Santo.
Obra do demo, redemoinho ou caso fortuito, o moço em certa altura começou a sentir que as forças lhe faltavam e a reconhecer que não poderia salvar-se pelo seu próprio esforço.

Pegou-se com o apóstolo.
– Santiago me acuda, disse.
Santiago, ouvindo-o, montou rápido o seu cavalo fogoso e este, com uma única passada: uma pata no Ribeiro (que do Santo tomou o nome) e outra na margem da Ribeira da Sertã atingiu o Pego. O Santo estendeu o seu pau ou cajado ao rapaz, que a ele se agarrou e assim se salvou”.

Segundo Jaime Lopes Dias, “a veracidade do facto é ainda hoje atestada, afirmam, pela impressão da pata do cavalo na safra da margem do ribeiro, só o não sendo já na margem do Pego por os últimos vestígios que lá existiam terem sido destruídos por um zorro (lugar por onde escorregam os troncos dos pinheiros que são transportados pela corrente da água) que ali funciona há anos”.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O drama do desemprego no país e na Sertã

Enquanto o país vai assistindo incrédulo às declarações patéticas de José Sócrates, a propósito do défice (este político deve sofrer de amnésia), e à forma pouco competente como Pedro Passos Coelho tem explicado o alcance das medidas previstas no Orçamento de Estado, um outro problema vai emergindo paulatinamente e colocando em risco a estabilidade do país: o desemprego. E o concelho da Sertã não é excepção, como mais adiante veremos.
Quase todos os políticos e analistas se referem ao desemprego com uma comiseração de meter dó, sem contudo discutirem o fundamental nem tampouco avançar com medidas que possam inverter um cenário que tem tudo para piorar nos próximos anos e tornar-se num verdadeiro flagelo social e económico. Fernando Sobral, na sua coluna habitual no Jornal de Negócios, colocava, na semana passada, o dedo na ferida: “Um dos problemas centrais do mundo ocidental, o desemprego, está completamente fora das preocupações dos líderes da UE”.
Claro que para um país ‘intervencionado’ como o nosso, não é fácil dar a volta ao estado de coisas actual, ainda para mais quando o desenvolvimento português tem assentado, nos anos mais recentes, num modelo económico caduco e sem qualquer ligação à realidade. Mas baixar os braços não é solução, como não é solução o aumento de meia-hora diária no horário de trabalho dos privados – a única medida até agora conhecida do Governo para recuperar a economia. É pouco para quem se diz tão reformista. E nem vou falar das sugestões vergonhosas e idiotas feitas por Passos Coelho, e já anteriormente pelo seu secretário de Estado da Juventude, Alexandre Mestre, de que seria boa ideia alguns jovens portugueses emigrarem. É realmente desolador ver um chefe de Executivo convidar os cidadãos mais qualificados a abandonarem o seu país. Os estudiosos do brain drain terão aqui um case study muito interessante para analisar!
Mas concentremo-nos no concelho da Sertã e na forma como o desemprego tem vindo a crescer nesta zona do país. Segundo os últimos dados do IEFP, o número de desempregados no concelho, no passado mês de Novembro, era de 709 indivíduos, o valor mais alto, pelo menos, dos últimos sete anos. De notar que dos 709 desempregados, 213 estão nesta situação há mais de um ano.
Se olharmos em retrospectiva, podemos verificar que, em Novembro de 2004, o número de desempregados ascendia a 390, dos quais 261 eram do sexo feminino. Comparando estes resultados com o mesmo mês de 2011, podemos concluir que o número de indivíduos sem trabalho aumentou quase para o dobro, uma situação que, refira-se, é extensível a todo o país. Todavia, estes números podem pecar por defeito, até porque nem todos os desempregados denunciam a sua situação ao IEFP, escapando a esta malha estatística, o que poderá fazer subir ainda mais os valores actuais.
Falando do momento presente, tentemos perceber quem são estes 709 desempregados? A maioria são mulheres (465), sendo que o grupo etário mais afectado por este problema é o que se situa no intervalo entre os 35 e 54 anos (317 indivíduos). Ao nível da escolaridade, os desempregados com o secundário concluído são em maior número (229), seguindo-se os que contam com o 3.º ciclo do ensino básico (209). Referência para os 53 licenciados no desemprego.
Posto isto, o que poderemos fazer num concelho que sofre cada vez mais os efeitos da interioridade e onde as oportunidades de emprego escasseiam? Não entrando aqui no debate das oportunidades perdidas no passado (foram demais e muitas por inércia de quem passou pelo poder neste últimos 25 anos), penso que é chegada a altura de discutir o problema olhos nos olhos e sem medos, deixando de lado os caciques partidários e as ‘palas’ que tanto obstruem o raciocínio a muita boa gente deste concelho. O problema da expansão da zona industrial tem vindo a ser resolvido muito lentamente e nem vale a pena falar da pouca promoção ao concelho fora dos círculos regionais onde ele se encontra. Quantos empresários nacionais conhecerão a Sertã e as suas potencialidades? Aliás, quantos empresários nacionais saberão onde sequer fica a Sertã?
Não sou dos que defendem que a criação de emprego deva ser da responsabilidade das autarquias (esse tempo já vai longe), a sua função é outra: criar as condições necessárias para que mais empresários nos procurem para aqui fazerem os seus investimentos.
O tempo é de crise, pelo que estas oportunidades de investimento não existem, responderão alguns, contudo é nestes momentos que se arruma a casa e se aposta a sério. E muito do que há para ser feito não precisa que se gaste um euro; precisa apenas que exista vontade política para que as iniciativas avancem. E é preciso, desde logo, louvar iniciativas como os concursos de ideias ligados ao empreendedorismo, que a autarquia sertaginense tem promovido nos últimos anos.

Mas é preciso mais! E isso também dependerá de todos nós. Não basta criticar e apontar o dedo, torna-se fundamental encontrar soluções que invertam o actual cenário. Isto porque se nada for feito corremos o risco de ver a Sertã condenada a um morte certa e lenta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Marco Figueiredo apresenta novo álbum na Casa da Cultura

A Casa da Cultura da Sertã será palco, no próximo dia 10 de Dezembro (sábado), para a apresentação do segundo disco do músico sertaginense Marco Figueiredo. O álbum «Fotografia» poderá ser ouvido a partir das 22 horas nesta sala situada no centro da vila.
O novo disco é apelidado pelo autor como um “concerto de música fotográfica” e resulta da vontade de fusão de duas artes distintas: música e fotografia. Durante as gravações do álbum, foram usadas imagens como inspiração para compor e improvisar os 14 temas que o compõem.
O concerto de sábado será preenchido por temas do álbum «Fotografia», estando também prevista a projecção de imagens de dois fotógrafos sertaginense (Ângelo Lucas e Rita Garcia) durante a execução das várias músicas.
Para aguçar o apetite, e com a devida vénia ao Marco Figueiredo, aqui vai um dos temas do novo álbum:
http://vimeo.com/30652996
Aqui fica a sugestão para este fim-de-semana. A entrada no concerto é livre.