segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O drama do desemprego no país e na Sertã

Enquanto o país vai assistindo incrédulo às declarações patéticas de José Sócrates, a propósito do défice (este político deve sofrer de amnésia), e à forma pouco competente como Pedro Passos Coelho tem explicado o alcance das medidas previstas no Orçamento de Estado, um outro problema vai emergindo paulatinamente e colocando em risco a estabilidade do país: o desemprego. E o concelho da Sertã não é excepção, como mais adiante veremos.
Quase todos os políticos e analistas se referem ao desemprego com uma comiseração de meter dó, sem contudo discutirem o fundamental nem tampouco avançar com medidas que possam inverter um cenário que tem tudo para piorar nos próximos anos e tornar-se num verdadeiro flagelo social e económico. Fernando Sobral, na sua coluna habitual no Jornal de Negócios, colocava, na semana passada, o dedo na ferida: “Um dos problemas centrais do mundo ocidental, o desemprego, está completamente fora das preocupações dos líderes da UE”.
Claro que para um país ‘intervencionado’ como o nosso, não é fácil dar a volta ao estado de coisas actual, ainda para mais quando o desenvolvimento português tem assentado, nos anos mais recentes, num modelo económico caduco e sem qualquer ligação à realidade. Mas baixar os braços não é solução, como não é solução o aumento de meia-hora diária no horário de trabalho dos privados – a única medida até agora conhecida do Governo para recuperar a economia. É pouco para quem se diz tão reformista. E nem vou falar das sugestões vergonhosas e idiotas feitas por Passos Coelho, e já anteriormente pelo seu secretário de Estado da Juventude, Alexandre Mestre, de que seria boa ideia alguns jovens portugueses emigrarem. É realmente desolador ver um chefe de Executivo convidar os cidadãos mais qualificados a abandonarem o seu país. Os estudiosos do brain drain terão aqui um case study muito interessante para analisar!
Mas concentremo-nos no concelho da Sertã e na forma como o desemprego tem vindo a crescer nesta zona do país. Segundo os últimos dados do IEFP, o número de desempregados no concelho, no passado mês de Novembro, era de 709 indivíduos, o valor mais alto, pelo menos, dos últimos sete anos. De notar que dos 709 desempregados, 213 estão nesta situação há mais de um ano.
Se olharmos em retrospectiva, podemos verificar que, em Novembro de 2004, o número de desempregados ascendia a 390, dos quais 261 eram do sexo feminino. Comparando estes resultados com o mesmo mês de 2011, podemos concluir que o número de indivíduos sem trabalho aumentou quase para o dobro, uma situação que, refira-se, é extensível a todo o país. Todavia, estes números podem pecar por defeito, até porque nem todos os desempregados denunciam a sua situação ao IEFP, escapando a esta malha estatística, o que poderá fazer subir ainda mais os valores actuais.
Falando do momento presente, tentemos perceber quem são estes 709 desempregados? A maioria são mulheres (465), sendo que o grupo etário mais afectado por este problema é o que se situa no intervalo entre os 35 e 54 anos (317 indivíduos). Ao nível da escolaridade, os desempregados com o secundário concluído são em maior número (229), seguindo-se os que contam com o 3.º ciclo do ensino básico (209). Referência para os 53 licenciados no desemprego.
Posto isto, o que poderemos fazer num concelho que sofre cada vez mais os efeitos da interioridade e onde as oportunidades de emprego escasseiam? Não entrando aqui no debate das oportunidades perdidas no passado (foram demais e muitas por inércia de quem passou pelo poder neste últimos 25 anos), penso que é chegada a altura de discutir o problema olhos nos olhos e sem medos, deixando de lado os caciques partidários e as ‘palas’ que tanto obstruem o raciocínio a muita boa gente deste concelho. O problema da expansão da zona industrial tem vindo a ser resolvido muito lentamente e nem vale a pena falar da pouca promoção ao concelho fora dos círculos regionais onde ele se encontra. Quantos empresários nacionais conhecerão a Sertã e as suas potencialidades? Aliás, quantos empresários nacionais saberão onde sequer fica a Sertã?
Não sou dos que defendem que a criação de emprego deva ser da responsabilidade das autarquias (esse tempo já vai longe), a sua função é outra: criar as condições necessárias para que mais empresários nos procurem para aqui fazerem os seus investimentos.
O tempo é de crise, pelo que estas oportunidades de investimento não existem, responderão alguns, contudo é nestes momentos que se arruma a casa e se aposta a sério. E muito do que há para ser feito não precisa que se gaste um euro; precisa apenas que exista vontade política para que as iniciativas avancem. E é preciso, desde logo, louvar iniciativas como os concursos de ideias ligados ao empreendedorismo, que a autarquia sertaginense tem promovido nos últimos anos.

Mas é preciso mais! E isso também dependerá de todos nós. Não basta criticar e apontar o dedo, torna-se fundamental encontrar soluções que invertam o actual cenário. Isto porque se nada for feito corremos o risco de ver a Sertã condenada a um morte certa e lenta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Marco Figueiredo apresenta novo álbum na Casa da Cultura

A Casa da Cultura da Sertã será palco, no próximo dia 10 de Dezembro (sábado), para a apresentação do segundo disco do músico sertaginense Marco Figueiredo. O álbum «Fotografia» poderá ser ouvido a partir das 22 horas nesta sala situada no centro da vila.
O novo disco é apelidado pelo autor como um “concerto de música fotográfica” e resulta da vontade de fusão de duas artes distintas: música e fotografia. Durante as gravações do álbum, foram usadas imagens como inspiração para compor e improvisar os 14 temas que o compõem.
O concerto de sábado será preenchido por temas do álbum «Fotografia», estando também prevista a projecção de imagens de dois fotógrafos sertaginense (Ângelo Lucas e Rita Garcia) durante a execução das várias músicas.
Para aguçar o apetite, e com a devida vénia ao Marco Figueiredo, aqui vai um dos temas do novo álbum:
http://vimeo.com/30652996
Aqui fica a sugestão para este fim-de-semana. A entrada no concerto é livre.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A defesa do Interior é agora uma prioridade de Cavaco Silva

O presidente da República voltou a centrar o seu discurso no Interior do país, nomeadamente nas zonas rurais. Cavaco Silva pediu a criação de incentivos para fixar populações nestas mesmas zonas.
Começam a ser um hábito estes discursos de Cavaco Silva, apelando para a adopção de medidas com vista à resolução de um problema (despovoamento do Interior), onde ele tem muitas culpas no cartório. Claro que essas culpas são extensíveis a boa parte dos governos que passaram pelo país ao longo das três últimas décadas.
Depois de ter centralizado o seu discurso neste mesmo problema, no passado dia 10 de Junho, por ocasião das comemorações do Dia de Portugal, em Castelo Branco, o Chefe de Estado fez neste último sábado mais uma intervenção, que não deixa de pecar por tardia. E porquê? Onde terá andado Cavaco Silva quando, ao longo dos últimos anos, vários sociólogos, geógrafos, historiadores e outros especialistas chamaram a atenção para problemas como as assimetrias criadas entre o Litoral e o Interior, para o despovoamento ou para a falta de oportunidades de quem optava por resistir à tentação de partir?
Mas, como diz o ditado, mais vale tarde do que nunca e é positivo que agora o presidente da República esteja a colocar o assunto na sua agenda. Esperemos que não seja por pouco tempo ou por mero tacticismo político.
Mas concentremo-nos nas ideias de Cavaco Silva. Diz o Chefe de Estado: “Precisamos de um programa de repovoamento agrário que consiga captar uma parte dos recursos humanos desaproveitados”, ao mesmo tempo que deveriam ser concertados “esforços entre entidades públicas e privadas para criar medidas de incentivo à fixação nas zonas rurais”.Entre as possíveis soluções, Cavaco Silva avançou com a hipótese de serem criados incentivos ao emprego e aos jovens agricultores, apoios a empresas e a concessão de microcrédito para projectos de desenvolvimento rural.
As palavras do presidente foram proferidas no encerramento do Congresso do Centenário do Crédito Agrícola, em Lisboa, e nem a propósito referiu: “O que vos peço, a todos, é um esforço adicional no sentido de darem uma oportunidade, neste momento, a quem está disposto a trabalhar e a contribuir para a superação da crise por que passamos”.Dando nota do aparente paradoxo que é o contraste entre o “flagelo do desemprego prolongado”, a emigração de milhares de jovens e o despovoamento dos campos e desertificação do Interior, o presidente da República pugnou pela procura de “soluções inovadoras” para criar mais oportunidades de auto-emprego e de empreendedorismo rural.


As ideias são boas, a questão agora é de saber de onde vem o dinheiro para as colocar em prática e se ainda existe vontade para apostar no Interior. Será que existe?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Jornais antigos: O Zephyro

Começou a publicar-se no dia 30 de Junho de 1898 e dava pelo nome de «O Zephyro». O jornal, com sede em Cernache do Bonjardim, tinha uma periodicidade semanal e propunha-se abordar temáticas como a religião, a literatura e as artes.
A ideia para a sua fundação partiu de Fabião de Almeida e inicialmente a circulação do jornal restringia-se ao interior do Seminário das Missões Ultramarinas, funcionando mesmo, em alguns momentos, como uma espécie de porta-voz da instituição.
A publicação, de cariz assumidamente amador, tinha um número bastante reduzido de cópias na rua, devido ao facto de ser manuscrita. O redactor António Pedro Ramalhosa assegurava a escrita das notícias e Pedro Lourenço desempenhava as funções de secretário na redacção.
Não sabemos até quando se publicou este jornal, mas é um facto que o mesmo ainda existia nos primeiros anos do século XX.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sertã tem poder de compra abaixo da média nacional

O poder de compra per capita no concelho da Sertã está 36 por cento abaixo da média nacional. Esta é uma das conclusões que é possível tirar da análise do estudo sobre o poder de compra que o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou recentemente e que assenta em dados relativos ao ano de 2009.
A tendência identificada na Sertã é extensível, contudo, a todos os concelhos que integram a região do Pinhal Interior Sul: Oleiros (- 46%), Proença-a-Nova (- 43%), Vila de Rei (- 40%) e Mação (- 34%). Aliás, o Pinhal Interior Sul (onde a Sertã se inclui) é aquele que apresenta a percentagem de poder de compra mais baixa de Portugal Continental, com 0,229 por cento.
Estes são números muito preocupantes para a nossa região e sobretudo para o país que, usando um termo muito em voga neste momento, vive a duas velocidades, com um fosso cada vez maior entre Litoral e Interior. Mais do que um problema de crises, esta é uma questão estrutural.
Basta ver que no conjunto dos 308 municípios portugueses apenas 39 apresentam um poder de compra per capita acima da média nacional. E onde estão estes municípios? Nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e em algumas capitais de distrito.
Além disso, é ilustrativo este número divulgado pelo INE: “o indicador de Poder de Compra revela que 27 municípios concentram 50 por cento do poder de compra nacional”.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Memórias: Mercado Bittencourt



O dia 2 de Julho de 1916 ficou marcado pela inauguração da “obra mais grandiosa desta geração (…), suficientemente grande para fazer o orgulho de certas vilas e até de algumas cidades”. Esta passagem do discurso, que o Padre Cândido Teixeira proferiu durante a abertura do Mercado Bittencourt, em Cernache do Bonjardim, atesta bem do orgulho e alegria que esta obra provocou entre os habitantes da freguesia naquele domingo de início de século.
O mercado era já uma velha aspiração da então aldeia de Cernache, mas a falta de dinheiro atrasou a concretização deste sonho. Foi então que entrou em cena o coronel António Clemente Ribeiro Bittencourt, governador do Estado do Amazonas, que durante uma visita realizada a Cernache, em 1909, na sequência de um convite de Joaquim de Paula Antunes, ficou sensibilizado com a pretensão dos cernachenses, relativamente ao novo mercado, e prometeu que daria o dinheiro necessário para a sua construção.
Joaquim de Paula Antunes ficou encarregue de todo o processo burocrático e o incontornável Abílio Marçal responsabilizou-se pela condução das obras e pela elaboração do regulamento do mercado.
O resto é história para contar um dia.

Povoações: Trizio (freguesia de Palhais)

As águas que lhe banham as margens são muito procuradas pelos sertaginenses, e não só, durante os meses de Verão mas poucos são os que conhecem a história deste lugar e o que as areias do tempo por aqui deixaram escondido. A povoação que hoje destacamos é o Trizio, lugar pertencente à freguesia de Palhais.
Não é difícil aceitar a ideia de que o povoamento do Trizio terá muitos séculos, dada a sua grande proximidade ao rio Zêzere (com muito pescado) e por beneficiar de solos bastante férteis nos seus limites. Num documento de 1758, o Padre Crisóstomo Luís Aires escrevia que “o rio Zêzere traz bastante peixe. Suas pescarias se fazem as melhores no tempo mais frigido, quando há as maiores geadas, e então se apanham bastantes peixes machos e bogas e alguns machos de quinze e vinte arráteis”.
Segundo os censos mandados fazer em 1527, o Trizio contava nesta altura com 14 fogos, número que aumentou para 26 (em 1730) e 30 (1891). É curioso verificar que, durante boa parte do século XX, este foi o lugar mais povoado da freguesia de Palhais, sendo que ainda hoje a sua população deverá rondar a centena de pessoas.
Em resultado desse elevado número de habitantes, não é de estranhar que o Trizio já dispusesse, em 1937, de um posto escolar, a funcionar numa das casas da aldeia. Aliás, este posto seria encerrado temporariamente no final de 1938, por falta de condições da referida casa, reabrindo dois anos depois num novo local (uma casa de habitação cedida por uma das famílias mais abastadas do lugar).
A Capela de São Pedro, existente na aldeia, é uma das mais antigas da povoação, sendo certo que a mesma já existia no início do século XVIII. As obras aí realizadas há algumas décadas descaracterizaram bastante o templo original, restando pouco desses primitivos tempos. Esta ermida tinha um capelão, que antes de 1772 era pago pela população e que após essa data passou a ser remunerado pelo Priorado do Crato (o seu salário era “hum moyo e 30 alqueires de trigo”). Manuel Caetano de Andrade, natural do Trizio, ocupou o lugar de capelão durante mais de 40 anos, entre a última década de 1790 e os anos de 1830.
De acordo com a população, o Trizio foi, desde sempre, procurado por muitos clérigos que aqui rumavam, buscando recolhimento para o seu trabalho espiritual. Ainda hoje, se mantém de pé a casa que recebeu muitos destes ‘viajantes’ (e que foi morada do próprio capelão da aldeia), situada junto à capela. Por cima da porta de entrada, pode observar-se a data de construção: 1742. Há quem diga que existia, inclusive, um túnel que ligava esta casa à capela, apesar de não ter sido possível verificar a autenticidade desta informação.
Em tempos recuados, e segundo documentos da antiga Ordem de Malta, o Trizio dispunha de uma barca que fazia o transporte de pessoas entre este lugar e o de Águas Belas, no concelho de Ferreira do Zêzere. A Barca do Trizio começou as suas viagens há mais de 500 anos.
Hoje, o Trizio preserva muitas destas histórias através dos seus moradores mais antigos. Talvez ainda possamos ir a tempo de recuperar algumas.
De destacar ainda nesta povoação o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Centro Náutico do Zêzere, na dinamização de diversas actividades nas águas do Zêzere, e do Centro Social, Cultural, Recreativo e Desportivo do Trizio, que assistiu à inauguração da sua nova sede em Novembro de 2007.

Fontes: A Sertã e o seu Concelho; Antiguidades, Famílias e Varões de Sernache do Bom Jardim Vol.2, Folha de Pagamentos do Almoxarifado da Sertã; Casa do Infantado; Documentos da Ordem de Malta e do Priorado do Crato; Descrição Geral do Reino de Portugal; entrevistas presenciais com alguns habitantes do Trizio

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Padre Manuel Antunes: a homenagem e um pouco da sua vida

A Casa da Comarca da Sertã vai homenagear o Pe. Manuel Antunes, S.J. (as siglas dizem respeito a Societas Iesu – Companhia de Jesus) num jantar que terá lugar no próximo dia 4 de Novembro, em Lisboa. Na ocasião será apresentada a obra completa deste ilustre sertaginense, editada em 14 volumes pela Fundação Calouste Gulbenkian e cuja coordenação geral esteve a cargo de José Eduardo Franco, presidente da Direcção do Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes. Marcarão ainda presença neste evento o conhecido comentador Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel José do Carmo Ferreira, presidente da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa, e Raul Miguel Rosado Fernandes.
Aproveitando a oportunidade e por se celebrar no dia 3 de Novembro o 93.º aniversário do seu nascimento, deixamos aqui algumas notas biográficas e tentamos reconstruir um pouco daquilo que foi o percurso de um homem a quem um dia o Diário de Notícias chamou de “intelectual ecuménico”.
Manuel Antunes nasceu na vila da Sertã a 3 de Novembro de 1918, sendo filho de José Agostinho Antunes e de Maria de Jesus. Era o mais velho de três irmãos (os outros eram José Antunes – que foi presidente da Câmara da Sertã – e Maria do Céu Antunes) e aos 13 anos ingressou no Seminário Menor da Companhia de Jesus, em Guimarães, a que se seguiu a sua entrada, a 7 de Setembro de 1936, no noviciado da Companhia de Jesus, em Alpendorada (Marco de Canaveses).
Foi aí que fez a sua primeira profissão religiosa (8 de Setembro de 1938), tendo depois completado os estudos humanísticos e frequentado o Instituto Superior Beato Miguel de Carvalho (hoje Faculdade de Filosofia de Braga). Licenciou-se em Filosofia, apresentando a dissertação «Panorama da Filosofia Existencial de Kierkegaard a Heidegger».
Depois de um breve período a leccionar Língua e Cultura Latina e Grega, matriculou-se na Faculdade de Teologia de Granada (Espanha), onde se formou em Teologia, completando a sua formação religiosa em Namur (Bélgica).
No dia 15 de Julho de 1949, recebeu a ordenação sacerdotal, conferida pelo bispo de Guadix, D. Rafael Alvarez de Lara, e celebrou a sua missa nova a 31 do mesmo mês na igreja de Nossa Senhora de Fátima, no Porto.
Voltou ao ensino para leccionar no Curso Superior de Letras da Companhia de Jesus e, em Setembro de 1955, rumou a Lisboa para integrar a redacção da revista Brotéria, que havia mais tarde de dirigir (entre 1965 e 1982). A cultura e a filosofia eram os seus temas predilectos nesta influente publicação, que divulgou também vários textos de crítica literária deste autor.
No mês de Outubro de 1957, o escritor Vitorino Nemésio, na altura director da Faculdade de Letras de Lisboa, convidou-o para leccionar, naquela instituição, as cadeiras de História da Cultura Clássica e de História da Civilização Romana. Mais tarde regeu igualmente a cadeira de História da Filosofia Antiga e de Ontologia.
“Creio que jamais faltei a uma das suas aulas e lembro-me que o anfiteatro I da Faculdade estava sempre cheio quando falava”, recordou José Medeiros Ferreira, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo de Mário Soares, em depoimento recolhido pelo Diário de Notícias.
O seu amigo João Maia escreveu: “Era um sábio, dono de prodigiosa informação. Sabemos que o seu poder de estudo era de tal ordem que conseguia integrar, numa bela síntese vital, paralelos sectores de ciências e de saberes”.
Por seu lado, António Leite, num pequeno opúsculo publicado aquando da morte do Pe. Manuel Antunes, dizia: “O que todos os seus alunos mais admiravam era a sua vastíssima e multiforme cultura, o seu poder de síntese, a clareza e vigor da exposição, o seu aspecto modesto e acolhedor, que tornava as suas aulas e a sua convivência muito apreciadas”.
A sua produção literária era invejável. Além de dirigir a revista Brotéria, colaborou com outras publicações, designadamente a Euphrosyme e a Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, tendo assinado também alguns dos artigos que integraram a Enciclopédia Luso-Brasileira, da editora Verbo. Na obra publicada, encontramos uma vasta lista de títulos, de onde se destacam: «Do Espírito e do Tempo» (1960), «Grandes Derivas da História Contemporânea» (1972), «Educação e Sociedade» (1973) e «Repensar Portugal» (1979).
Em 1981, recebeu o título de Doutor ‘Honoris Causa’ da Faculdade de Letras de Lisboa e dois anos depois, no dia 10 de Junho, o presidente da República Ramalho Eanes conferiu-lhe o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.
A ligação entre o Padre Manuel Antunes e Ramalho Eanes era bastante estreita, a ponto de o general o ter convidado para seu conselheiro. O antigo presidente da República disse numa entrevista, publicada há alguns anos, que o Pe. Manuel Antunes “era um homem com um profundo conhecimento, de grande prudência, com convicções muito sólidas e com grande carácter”. Acrescentando depois que “o ouvia sobretudo para as grandes questões políticas, ou seja, as questões que tinham que ver com o Estado, com o seu funcionamento, e as relações com a sociedade civil”.
A partir de 1983, o seu estado de saúde agravou-se, vindo a falecer no dia 18 de Janeiro de 1985, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. No seu funeral, marcaram presença algumas das principais individualidades políticas da época, como Mário Soares, Carlos Mota Pinto e Francisco de Sousa Tavares. A Assembleia da República, em sinal de homenagem, guardou um minuto de silêncio em sua memória.
Muito mais haveria a dizer sobre o Pe. Manuel Antunes, mas por agora fica o essencial – o resto da descoberta ficará a cargo de cada um. Como disse a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen: “Havia uma coisa extraordinária no padre Antunes: uma grande ligação entre a cultura e a vida”.
João Bénard da Costa, o saudoso e ‘eterno’ director da Cinemateca Portuguesa, sabia-o muito bem e por isso terá afirmado: “Ao Padre Manuel Antunes poderá aplicar-se o que ele próprio disse um dia de Kierkegaard: «um ser que nunca foi criança, nunca foi adolescente, nunca foi jovem, mas adulto, sempre adulto»”.
Na Sertã, além de um monumento erigido em sua memória (cada vez mais escondido), existe também uma rua com o seu nome, mais precisamente a que está em frente ao terminal rodoviário.

Fontes: «Padre Manuel Antunes, S.J. 1918-1985» (Luís Machado de Abreu e José Eduardo Franco); «Padre Manuel Antunes» (João Maia); «Padre Manuel Antunes (1918-1985) – Interfaces da cultura portuguesa e europeia» (coord. José Eduardo Franco e Hermínio Rico); Diário de Notícias

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O triste fado da Extensão do Centro de Saúde de Cernache do Bonjardim

Não deixa de ser irónico que no dia em que é apresentado oficialmente o projecto «Sertã Saúde Mais» (uma excelente iniciativa, diga-se em abono da verdade), a Rádio Condestável tenha de noticiar nos seus blocos informativos que a Extensão do Centro de Saúde de Cernache do Bonjardim está, actualmente, sem médicos.
Segundo esta estação de rádio, “são muitas as pessoas que ali se dirigem para serem consultadas, sendo informadas de que não existem médicos”.
É vergonhoso que depois do triste episódio verificado durante os meses de Verão nesta mesma extensão, as populações servidas por esta unidade (cerca de 3.900 pessoas) tenham de passar uma vez mais por esta situação da falta de médicos.
As explicações do costume concerteza que virão a terreiro, mas não será tempo de resolver o problema? Caso não seja possível resolve-lo, pelo menos minorá-lo. Um dia destes, arriscamo-nos a ter os chamados portugueses de primeira (aqueles que nas grandes áreas metropolitanas têm acesso a todo o tipo de serviços) e os de segunda (os que tomaram a decisão de ficar pelo Interior e que não têm acesso a esses mesmos serviços).
Como dizia Bagão Félix, há cerca de duas semanas, no jornal Público: “O Estado tem uma função de suplência, tem de provisionar a sociedade com critérios de bem comum. Se se aplicarem apenas critérios economicistas, muitas aldeias não teriam água nem luz, pois a sua população não paga o investimento feito”.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um Orçamento de Estado para salvar um país ‘tecnicamente’ falido – e a Sertã no meio de tudo isto

O Governo prometeu e ele aí está, o Orçamento de Estado (OE) mais recessivo de que há memória, pelo menos nos últimos quarenta anos. A tragédia, que não a grega (esses estão bem encomendados!!!), é que todas as medidas agora anunciadas (corte de subsídios, congelamento de salários, agravamento no IVA, subida de vários impostos, aumento das horas de trabalho, limites às deduções fiscais ou taxas adicionais) poderão não chegar para salvar o país da falência, como têm admitido alguns analistas.
Claro que a justeza das medidas é discutível, como é discutível a ausência de reformas profundas para o curto-prazo. O Orçamento de Estado dedica poucas linhas às prometidas reformas, o que deixa transparecer, como alguém disse, que neste OE “o urgente se sobrepõe ao importante”.
A questão que muitos portugueses colocam é para que servirão estes sacrifícios se o Estado não se modernizar e se o país não fizer as reformas necessárias para aumentar a sua competitividade e atractividade em relação ao exterior? E já nem falo da ausência de medidas para fazer crescer a economia…
Perante tudo isto, e analisando agora o efeito que estas medidas poderão ter no concelho não será difícil prever que, à semelhança do resto do país, a Sertã viverá tempos difíceis. Olhando para a estrutura económica sertaginense, temos que o município possui cerca de seis mil trabalhadores (dados de 2009), dos quais 2.619 exercem a sua actividade por conta de outrem, auferindo um salário médio de 732,8 euros. A baixa escolaridade dos trabalhadores é um dado preocupante, sendo que a maioria não tem mais do que o terceiro ciclo do ensino básico (o equivalente ao 9.º ano) e apenas 143 possuem uma licenciatura. Ou seja, a mão-de-obra na Sertã é de pouco qualificada. De notar, que o sector terciário é o que absorve boa parte da população empregada (1.400 trabalhadores por conta de outrem – não estão aqui incluídos os trabalhadores por conta própria), não sendo despiciente o valor alcançado também pelo sector secundário.
Registe-se também que a Sertã verifica cerca de 6.083 pensionistas, que recebem um valor médio anual de 3.485 euros.
Recordo igualmente o que aqui escrevemos há cerca de dois anos, citando a Agenda 21 Local do município da Sertã: o concelho tem “poucas oportunidades de emprego”; existe muita “incerteza na manutenção e sobrevivência de micro, pequenas e médias empresas ligadas ao sector florestal”; a competitividade da actividade agrícola local é “pouca”, devido ao seu carácter minifundiário e ao “fraco associativismo por parte dos agricultores”; e a actividade industrial é “reduzida”. Sem esquecer o facto de o “extenso parque industrial atrair sobretudo actividades comerciais e de prestação de serviços”.
Perante este cenário não é difícil imaginar que só a perseverança e coragem dos empresários locais, aliada a uma vontade indómita por parte dos trabalhadores poderá evitar males maiores para o nosso tecido empresarial. No entanto, será de admitir um aumento significativo do número de desempregados no concelho, que actualmente está nos 621 indivíduos.
Mas não é só nos trabalhadores e pensionistas que as medidas de austeridade se farão sentir. Também as câmaras e freguesias viram as suas transferências estatais reduzidas. No caso da Câmara da Sertã, o Orçamento de Estado prevê uma transferência de 7.514.725 euros (contra 7.906.758 euros em 2011). Esta verba encontra-se assim distribuída no OE: Fundo de Equilíbrio Financeiro Corrente (4.254.220 euros), Fundo de Equilíbrio Financeiro Capital (2.836.147 euros), Fundo Social Municipal (215.068 euros) e IRS (209.290 euros).
Quanto às transferências para as freguesias do município sertaginense, as notícias não são melhores: o valor a transferir diminui de 579.962 euros para 551.207 euros. Este valor ficou assim distribuído pelas diferentes freguesias – Cabeçudo (27.114 euros), Carvalhal (23.159), Castelo (36.171), Cernache do Bonjardim (76.526), Cumeada (29.853), Ermida (29.402), Figueiredo (23.287), Marmeleiro (30.183), Nesperal (23.155), Palhais (26.952), Pedrógão Pequeno (40.887), Sertã (97.003), Troviscal (47.706) e Várzea dos Cavaleiros (39.809).
Sobre as verbas inscritas no Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC), ficamos sem saber se o concelho da Sertã irá receber alguma verba, isto porque o Governo decidiu, ao contrário do que vinha sucedendo até aqui, apenas colocar as afectações deste programa por regiões NUTS II.